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“Vovó Espangara”, de Malangatana, vai voltar a ficar zangada na cidade da Beira

Luis Leal Leonor

Luis Leal Leonor CEO 2iBi | software www.2iBi.com

O mural de Malangatana “Vovó Espangara está zangada”, o único do pintor moçambicano na cidade da Beira, está a ser recuperado ao fim de décadas de abandono e em que já mal se viam os contornos deste grito anticolonial.

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No ano em que Malangatana Valente Ngwenha, falecido em 2011, completaria 80 anos, uma iniciativa do Consulado Geral de Portugal na Beira, em parceria com o Ministério da Cultura e Turismo de Moçambique, devolveu vida ao mural, pelas mãos do restaurador português Fernando Mariano, numa história “com final feliz, feita de motivação, sorte e acasos”.

António Inocêncio Pereira, cônsul português na Beira, assume-se como admirador de Malangatana, tendo-o acolhido num posto anterior, em 1989, no Canadá. A sua colocação na segunda maior cidade moçambicana coincidiu com a nomeação de Silva Dunduro para ministro da Cultura de Moçambique – ele próprio um académico, reconhecido pintor e com completa noção da degradação do mural.

“A melhor forma de homenagear Malangata” refere o diplomata, “seria então tudo fazer para ajudar a reabilitar a sua ‘Vovó Espangara está zangada'”, criada pelo artista em 1970, em pleno período colonial, na antiga galeria e auditório da Beira, atual casa da Cultura da província de Sofala.

O restauro do mural, com um custo calculado em mais de 500 mil meticais (sete mil euros), será integralmente suportado pela comunidade e empresas portuguesas na Beira, após a iniciativa do cônsul, que chegou a vender a sua biblioteca pessoal para reunir fundos.

Trata-se de uma intervenção que “permitirá resgatar do esquecimento e destruição esta obra do maior pintor moçambicano”, resume António Inocêncio Pereira.

Ao longo de mais de um mês, numa parede de cerca de sete por quatro metros, Fernando Mariano, especialista português em conservação, devolveu as cores fortes e originais às personagens de Malangatana e que, antes da intervenção, estavam sumidas e quase fantasmagóricas.

“O estado de conservação não era famoso”, descreve Fernando Mariano, que tinha tomado conhecimento da obra de Malangatana através de Pancho Guedes, um antigo professor no seu curso de Arquitetura e outra celebridade em Moçambique. Pelas fotos do mural, já se tinha apercebido do efeito de degradação provocado por décadas de exposição ao sol e à chuva.

Fernando Mariano, que tem familiares na Beira, realizou o restauro ‘pro bono’, num currículo mais familiarizado com o renascimento, barroco, maneirismo e neoclássico e menos com a arte moderna africana.

O trabalho começou com o estudo do mural de Malangatana, num “processo moroso”, em que foi necessário fixar o que ainda restava, apanhar as linhas mestras e lentamente integrar as camadas “até se obter um nível consentâneo com o que existia”.

O especialista português contou com a colaboração de Jonas Tembe, do Museu Nacional de Arte de Maputo, que conheceu Malangatana e recuperou outras obras do pintor: “Apanha facilmente as técnicas e sabe como assentar o pincel”.

O mural segue a narrativa anticolonial transversal no percurso de Malangatana, na Beira traduzida por um dos seus principais bairros, Espangara, e pela voz de uma “vovó”, que, na tradição africana, “pelo menos os mais novos tinham que ouvi-la”, segundo o sociólogo e escritor Filimone Meigos. “Até porque estava zangada”.

Espangara, prossegue o autor num texto escrito em 2012, era e continua a ser um bairro periférico, populoso e cujas “paupérrimas condições de vida” inspiraram Malangatana.

“A zanga significaria por hipótese o prenúncio de cansaço, do avizinhar-se da gota que transbordaria a água do copo que Espangara representava, a parte pelo todo, metonímica do Moçambique colonizado”, observa Filimone Meigos.

Após a recuperação do mural, Fernando Mariano vai ainda proceder à limpeza e conservação de um painel de Shikani, junto do Palácio dos Casamentos, e da estátua “A mão”, de Jorge Garizo do Carmo.

A reabilitação de todas estas obras deverá ser inaugurada no IX Festival Nacional da Cultura, que terá lugar em agosto na cidade da Beira.

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